Matéria Diário Gaúcho: Memória Viva em Obra
Nesta terça-feira, 03 de março, o jornal Diário Gaúcho publicou a primeira reportagem detalhando o projeto Palafitas Emocionais. A obra, assinada pelo artista plástico Rogério Pessôa, propõe uma reflexão profunda sobre perda e reconstrução no bairro Humaitá.
O simbolismo da Ameixeira
O coração do projeto reside em uma ameixeira que não resistiu às cheias de 2024. O que antes era uma árvore frutífera "afogada" no pátio do artista, agora serve de estrutura para uma escultura monumental de 5,30 metros — a cota máxima do Guaíba durante a tragédia.
Arte que ocupa a cidade
Diferente das galerias fechadas, as Palafitas Emocionais serão instaladas no Parque Mascarenhas de Moraes a partir de maio. É a arte cumprindo sua função social: ocupar o espaço público e dialogar com quem viveu a história.
"O que poderia ser ruptura transformou-se em impulso criativo", define o artista.
Acompanhe as próximas etapas desta construção aqui no blog e nas redes sociais do artista.
Leia a Matéria completa no Diário Gaúcho 03.03.2026
Com base na imagem do jornal Diário Gaúcho de hoje, 03 de março de 2026, aqui está a transcrição completa da reportagem principal e das notas laterais:
MEMÓRIA VIVA EM OBRA
Instalação do artista plástico Rogério Pessôa propõe reflexão sobre perda, permanência e reconstrução.
EMILY BARCELLOS* Assistente de conteúdo
No bairro Humaitá, em Porto Alegre, uma nova escultura de 5,30 metros de altura irá se impor na paisagem, não apenas pela dimensão física, mas pelo peso simbólico que carrega. Palafitas Emocionais, projeto do artista plástico Rogério Pessôa, natural de Rio Grande, nasce como um gesto de memória coletiva diante da enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024.
Produzida em cerâmica e madeira reaproveitada de uma ameixeira morta pela cheia, a obra transforma a matéria ferida pela tragédia em suporte de permanência. A instalação será exibida no Parque Mascarenhas de Moraes a partir de maio, permanecendo em exibição até julho.
— A origem do material carrega uma história particular. Inicialmente, Pessôa pretendia utilizar galhos do Guaíba, como fazia em suas obras anteriores, mas acabou encontrando à frente de seu ateliê a madeira que daria corpo ao projeto. A ameixeira, árvore conhecida na vizinhança pela colheita de frutos, não resistiu à enchente.
— Ela morreu afogada. Literalmente afogada — relata o artista.
Parte do tronco foi preservada para estruturar a escultura, que exige, segundo ele, um cuidadoso trabalho de engenharia. A altura da peça, 5,30 metros, corresponde exatamente à cota máxima atingida pelas águas do Guaíba durante o desastre.
O próprio ateliê de Pessôa, localizado no bairro Floresta, foi tomado pela enchente. A água deslocou obras, interrompeu rotinas e impôs uma pausa abrupta. O que poderia ser ruptura transformou-se em impulso criativo. Entre esculturas, registros fotográficos e trabalhos em andamento, o espaço passou a condensar não só a trajetória artística, mas a experiência concreta da perda. Foi dali que surgiram as primeiras imagens de Palafitas Emocionais.
— Quando eu vi a água entrando aqui, comecei a desenhar e pensei: a gente precisa ter palafitas — comenta.
A cerâmica, também presente na instalação, reforça a ideia de permanência:
— É um dos materiais mais duráveis da história da humanidade. A cerâmica aparece em achados arqueológicos porque resiste milhares de anos — observa.
Instalada em espaço público, a obra reafirma a vocação de Pessôa por projetos abertos e acessíveis. A arte deixa o circuito restrito das galerias para ocupar a cidade e dialogar diretamente com quem viveu — e ainda vive — as consequências da enchente.
Apesar do tema sensível, o artista evita uma narrativa centrada exclusivamente na dor. Seu foco está na capacidade de reconstrução:
— Eu gosto de elevar o que as pessoas lutaram. Não ficar numa coisa triste. É pra frente que a gente vai. A monumentalidade da escultura não oprime; aponta para cima, como convite à continuidade.
Trajetória
Formado em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em mostras anteriores, suas esculturas e instalações já exploravam temas como sustentação, equilíbrio e resistência.
Antes de Palafitas Emocionais, a ideia de casa já ocupava lugar central em sua produção. Dessa recorrência surgem as chamadas "vilas": conjuntos formados por pequenas casas e estruturas elevadas que funcionam como metáfora do viver coletivo. Nessas obras, a casa deixa de ser apenas abrigo físico e passa a representar pertencimento.
— As vilas não são retratos literais de bairros específicos — explica o artista, acrescentando: — A casa sempre me interessou como ideia de proteção, mas também de exposição. Ao reunir múltiplas unidades habitacionais, Pessôa desloca o olhar do indivíduo para o coletivo.